sábado, 22 de novembro de 2008

O Sentido da Existência

Certa vez, minha avó me convidou para assistir ao desfile do 20 de Setembro. Neste ponto, é preciso abrir parênteses para explicar àqueles que não são gaúchos o que é o tal 20 de Setembro.

Trata-se de um dia de feriado e festejos no Rio Grande do Sul, em lembrança ao 20 de setembro de 1835, data em que foi deflagrada aqui a famosa Revolução Farroupilha, uma revolução de caráter republicano contra o governo imperial do Brasil e que resultou na declaração de independência da então província como estado republicano, dando origem à República Rio-Grandense. Uma das principais razões do conflito foi o fato de, diferentemente de outras províncias, cuja produção de gêneros primários se voltava para o mercado externo, como o açúcar e o café, a do Rio Grande do Sul produzia principalmente para o mercado interno. A região, desse modo, encontrava-se muito dependente do mercado brasileiro de charque (carne seca), que com o câmbio supervalorizado e benefícios tarifários, podia importar o produto por custo mais baixo.
Conseqüentemente, o charque rio-grandense tinha preço maior do que o similar oriundo da Argentina e do Uruguai, perdendo assim competitividade no mercado interno. Em resumo: os criadores de gado e açougueiros do Rio Grande do Sul estavam ensandecidos com a política econômica imperial, que não os beneficiava, e, com medo de irem à bancarrota, tomaram a sábia decisão de, além de matarem bois em massa, matarem também pessoas. Uma solução tipicamente gaúcha. Apenas em 1845, depois de levarem muito chumbo e estando cada vez mais acuados pelas tropas do império, os revoltosos colocaram o rabo entre as pernas e assinaram o tratado de paz. Para encurtar a história: no dia 20 de setembro, comemoramos orgulhosamente, aqui no Rio Grande do Sul, uma revolta fracassada. Temos, nesse dia, desfile de carros alegóricos acompanhados por uma profusão de cavaleiros, apresentações musicais, discursos de autoridades e tudo mais que calhar.

Sempre achei o desfile do 20 de Setembro uma maçada sem fim; porém, na última vez em que minha avó perguntou se não iria, respondi de modo reducionista mas honesto: “Não. Não vou prestigiar aquele monte de marmanjos montados em cavalos desfilando pela cidade. Cavalos não foram feitos para isso.” Minha gentil avó, desconcertada e do alto de sua octogenária sabedoria, respondeu: “Como não? E para que serviriam os cavalos se as pessoas não montassem neles?”

As palavras dela ficaram ecoando em minha mente e me levaram a uma série de reflexões sobre a riqueza da experiência humana e o sentido da vida. A fala de minha avó pode parecer tosca, mas não é: expressa uma profunda visão de mundo. Sim, entendam: nós, humanos, somos tão poderosos e privilegiados na ordem natural do universo que cabe a nós prover de sentido a existência de todos outros seres. Enchemos de sentido a vida dos cavalos porque montamos neles. Enchemos de sentido a vida de elefantes, leões e tigres quando ensinamos a eles como empinar bolas e saltar dentro de arcos de fogo. Enchemos de sentido a vida de ursos e alces quando os caçamos, empalhamos e transformamos em belos adornos. Enchemos de sentido a outrossim vazia e entediante vida de camundongos, coelhos e macacos quando, utilizando-os como cobaias, concedemos a eles o privilégio inenarrável de participar da engrenagem de uma de nossas mais belas instituições: a ciência. Inundamos de sentido pleno a vida de pássaros quando os colocamos em gaiolas para que possam, enfim, ter alguém racional e sensível como nós por perto para se embevecer com seu canto ou mesmo quando os abatemos a tiros e os imortalizamos em catálogos de espécies. Abarrotamos de sentido a modesta existência de cães e gatos quando exercitamos nosso lado proxeneta promovendo sua reprodução e levando-os para nossos lares a fim de que possam compartilhar de nossa companhia. Damos uma razão de ser aos porcos, às galinhas, aos bois e tantos outros utilizando-os como fonte de alimento e, assim, concedendo à sua carne o nobre destino de ser por nós metabolizada.

Sim, nós humanos somos excepcionais: temos desenvolvidíssima racionalidade, estamos no topo da cadeia alimentar, temos notáveis habilidades que nos permitem erigir cidades no deserto, enviar naves ao espaço, compor sinfonias, projetar máquinas de café expresso. Com tantos atributos, poderíamos nos deixar seduzir pela soberba, mas não: ainda temos a nobreza de espírito de compartilhar a riqueza de nossa experiência com os outros e menos privilegiados animais, dotando de sentido sua existência.

Pena que, mesmo com essa riqueza toda e mesmo sendo capazes de dar sentido à vida de tantos, não tenhamos, ainda, encontrado um sentido para a nossa própria. Quantas vezes não nos pegamos perguntando “para que tudo isso?” em um breve suspiro de reflexão em meio à agitação típica de nossa rotina? E, então, vem o vazio. Por que estou/estamos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? Religiões, seitas, videntes, auto-ajuda, búzios, tarô, meditação, drogas, trabalho pesado, ginástica calistênica, constituir família, escrever crônicas e publicar na internet: vale tudo para tentar preencher o vácuo da existência.

Não sei, mas, às vezes, em meio a tudo isso, chego a pensar que ficar por horas e horas ruminando no pasto faz bem mais sentido.

Rafael Bán Jacobsen

Vi no Vista-se.

Porque ironia também é vegetarianismo!

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